Desacelerar é escolher a vida

Adalgisa Lopes - Especialista em segurança viária, psicóloga especialista em Trânsito e presidente da Associação de Clínicas de Trânsito de Minas Gerais (Actrans-MG). (Foto: Divulgação)

(*) Por Adalgisa Lopes.

Há decisões públicas que soam impopulares a curto prazo, mas se tornam inquestionáveis quando se olha para o que realmente importa: vidas preservadas. A proposta em consulta pública para reduzir o limite de velocidade urbana para 30 km/h, medida já adotada por cidades líderes em segurança viária, é uma dessas escolhas. Não há eufemismo possível: o Brasil convive com uma tragédia silenciosa no asfalto. A cada dia, famílias são desfeitas por um fator previsível e controlável: a velocidade incompatível com a vida.

Quando Helsinque, capital da Finlândia, completa 365 dias sem registrar uma única morte no trânsito, não se está diante de um “milagre”, mas diante de uma política pública bem desenhada, baseada em evidências, com centralidade no fator humano e prioridade explícita à vida. Entre as mudanças implementadas, um ponto se destaca: limites de velocidade mais baixos nas vias urbanas, com 30 km/h como referência segura onde há mistura de carros, motos, bicicletas e pedestres.

“Desacelere – seu bem maior é a vida”. Não é um slogan, mas um diagnóstico. É hora de tratá-lo como tal. Um pedestre atropelado a 50 km/h tem até oito vezes mais probabilidade de morrer do que se o impacto ocorrer a 30 km/h. A diferença entre um susto e uma tragédia, frequentemente, são 20 km/h. Não é opinião, mas ciência. No Brasil, mais de 30 mil pessoas morrem por ano no trânsito. O excesso de velocidade está presente em cerca de um terço dos óbitos. Reduzir velocidades em ambiente urbano é a intervenção isolada com maior potencial de queda rápida de fatalidades.

Mas não basta reduzir limites sem intensificar a fiscalização. Onde esta é mais intensiva, acidentes e mortes caem, um efeito psicológico conhecido e consistente: a percepção de certeza da punição muda o comportamento.

A redução do limite para 30 km/h, aliada a desenho viário que impõe velocidades mais baixas, pode salvar até 10 mil vidas por ano no país. É um número ambicioso? Sim. É factível? Também. Porque não depende de inovações ou investimentos bilionários. Depende de decisão.

A objeção mais comum à redução de limites é que “o trânsito vai parar”. A experiência nacional e internacional mostra o oposto. Em Fortaleza, reduzir de 60 km/h para 50 km/h em avenidas primárias aumentou o tempo de viagem em apenas 6 segundos por quilômetro. Em troca, acidentes caíram 30% e atropelamentos despencaram 63%. Se você roda 10 km, está se falando de 1 minuto a mais e dezenas de vidas salvas por ano. A matemática é simples. A escolha, também.

Paris, Milão, Amsterdã e Nova York adotaram limites de 30 km/h em ampla parcela da malha urbana sem colapso de mobilidade. Por quê? Porque velocidade média urbana depende menos do limite máximo e mais de fluidez, intervalos semafóricos, redução de interrupções por colisões e previsibilidade do tráfego.

A mudança de comportamento no trânsito não acontece por apelo moral apenas; requer arquitetura de escolhas e reforços consistentes, além de uma abordagem holística. Pistas mais estreitas, travessias elevadas e lombo faixas recalibram a percepção de risco e reduzem a velocidade espontaneamente, sem depender da “boa vontade” do motorista. Câmeras automatizadas e presença regular de fiscalização criam um efeito preventivo.

O fator humano, responsável por 90% dos acidentes, precisa ter atenção redobrada. Hoje os motoristas são avaliados psicologicamente por volta dos 18 anos, quando fazem o processo de habilitação e seguem décadas sem qualquer nova checagem. Em uma sociedade que muda, com riscos novos (distrações digitais, fadiga crônica), reavaliações periódicas fazem sentido não como punição, mas como manutenção de competências indispensáveis para dirigir em segurança: atenção, julgamento, tomada de decisão, percepção de risco, velocidade de processamento, tempo de reação e autocontrole.

Há escolhas que definem quem se é como sociedade. Proteger quem anda a pé, quem pedala, quem espera o ônibus e quem dirige é afirmar que a cidade é, antes de tudo, um lugar para viver. A pergunta que está na mesa não é técnica, mas moral: vai-se seguir perdendo 30 mil vidas por ano para ganhar segundos no hodômetro? Ou se vai, como tantas outras cidades, fazer a escolha que põe a vida em primeiro lugar? Fica a certeza de que desacelerar é mais do que uma regra. É um compromisso com a vida. E esse compromisso começa com cada um, a cada viagem, a cada decisão ao volante.

Fonte: <patricia=monetacomunicacao.com.br@pr-agencia.com>

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