Os sinais de que uma empresa está em crise financeira

Fique atento! - Queda nas vendas, aumento da inadimplência, atrasos nos recebimentos, maior dependência de empréstimos bancários e mudanças no comportamento de clientes e fornecedores estão entre os sinais que devem acender o alerta dos gestores. (Imagem ilustrativa: Magnific grátis)

Uma empresa pode começar a enfrentar dificuldades financeiras muito antes de o problema aparecer de forma evidente no caixa. Queda nas vendas, aumento da inadimplência, atrasos nos recebimentos, maior dependência de empréstimos bancários e mudanças no comportamento de clientes e fornecedores estão entre os sinais que devem acender o alerta dos gestores.

Para Ivam Ricardo Peleias, professor da Fundação Escola de Comércio “Álvares Penteado” (Fecap), o acompanhamento sistemático de indicadores financeiros e operacionais é fundamental para identificar uma deterioração da saúde da empresa e permitir uma reação antes que uma dificuldade pontual se transforme em crise estrutural.

Entre os principais sinais de atenção estão a redução das vendas, o avanço da concorrência e a demora da empresa em adotar mudanças já percebidas e incorporadas pelo mercado, a perda do timing no uso de canais digitais e manutenção de fontes de financiamento com capital oneroso em épocas de juros elevados, entre outros. A Casas Bahia, uma grande rede nacional de varejo, que anunciou recentemente uma recuperação judicial, é exemplo de empresa que enfrentou dificuldades relativas à transformação do mercado e à adaptação aos canais digitais. Outra dificuldade da Casas Bahia é o modelo de vendas adotado, baseado no crediário/carnê para consumidores de menor poder aquisitivo. O aumento da inadimplência dessa parcela da clientela também contribuiu para o pedido de recuperação judicial. Este efeito não se limita à Casas Bahia, pois o aumento da inadimplência afeta parcela significativa da população.

Os empresários devem manter o radar sempre ligado. “É preciso acompanhar permanentemente o ambiente interno e externo da empresa, identificando pontos fortes e fracos, ameaças e oportunidades. O produto dessa análise deve alimentar o processo de gestão, o planejamento, a execução e o controle de forma permanente”, afirma Peleias.

Indicadores e acompanhamento

Segundo o professor da Fecap, a análise mensal das demonstrações contábeis deve fazer parte da rotina de gestão. Entre os instrumentos estão o balanço patrimonial, a demonstração do resultado do exercício (DRE), a demonstração dos fluxos de caixa, a análise dos custos fixos, as margens de contribuição por produtos e canais e o Ebitda.

Também é importante monitorar indicadores de liquidez, endividamento, lucratividade e rentabilidade, além dos prazos médios de pagamento e recebimento, rotação de estoques e evolução das contas a receber e a pagar. Esses dados permitem avaliar, entre outros aspectos, a capacidade de geração de caixa e a forma como as operações estão sendo financiadas.

“Depois de definir quais indicadores serão utilizados, eles podem ser parametrizados nos sistemas da empresa para que sejam calculados e reportados de forma recorrente. O acompanhamento não deve acontecer apenas quando surge um problema”, explica.

Queda nas vendas e falta de caixa

A combinação de queda nas vendas, aumento do endividamento e atrasos no pagamento de fornecedores é especialmente preocupante. De acordo com Peleias, esse cenário pode estar relacionado a atrasos sistemáticos no recebimento das vendas, inclusive decorrentes de políticas de concessão de crédito excessivamente flexíveis.

O professor cita como exemplo as Lojas Arapuã, antiga rede brasileira de varejo de eletrodomésticos e eletrônicos que teve forte expansão na década de 1990. Segundo Peleias, a empresa ilustra como uma política de crédito excessivamente flexível pode estimular as vendas, mas também provocar atrasos nos recebimentos e ampliar os problemas de fluxo de caixa.

O problema pode se agravar quando a empresa passa a recorrer de maneira recorrente a recursos bancários mais caros. O aumento da percepção de risco pode elevar os juros e os encargos cobrados pelas instituições financeiras, pressionando ainda mais o caixa. “É preciso agir rápido, pois a função comercial é a principal nas organizações. Uma consequência da queda das vendas é a falta de caixa para pagar fornecedores. Os atrasos nos pagamentos geram encargos que afetam o fluxo de caixa. É um círculo vicioso”, afirma o professor.

Peleias destaca ainda que os sinais de deterioração não aparecem apenas nos balanços. Mudanças no comportamento de clientes, fornecedores e bancos, atrasos em pagamentos e recebimentos, compras excessivas decorrentes de erros de avaliação do mercado e até boatos ou notícias sobre a empresa ou seu segmento podem exigir investigação mais aprofundada.

Nesse ponto, o professor também menciona a Mesbla, tradicional varejista brasileira que entrou em processo de deterioração financeira e posteriormente encerrou suas atividades, como exemplo histórico de uma empresa que, segundo sua análise, cometeu erros sistemáticos de avaliação mercadológica ao realizar compras em excesso.

Crescimento das vendas e saúde financeira

Outro ponto de atenção é a possibilidade de uma empresa apresentar aumento nas vendas e, ainda assim, caminhar para uma crise financeira. Isso pode ocorrer quando o crescimento é obtido, por exemplo, por meio de uma política de crédito excessivamente flexível, que aumenta as vendas, mas também a inadimplência.

O professor retoma o caso das Lojas Arapuã, rede varejista que ganhou grande presença no mercado brasileiro nos anos 1990, para ilustrar como o crescimento das vendas pode vir acompanhado de problemas de recebimento. Outra situação de risco ocorre quando a empresa define preços sem conhecer adequadamente seus custos ou aceita margens de contribuição insuficientes para cobrir custos e despesas. “Mais vendas não significam necessariamente mais caixa. A empresa precisa avaliar como essas vendas são financiadas, qual é a capacidade de recebimento e se os preços praticados geram margem suficiente para sustentar a operação”, explica Ivam Ricardo Peleias, professor da Fundação Escola de Comércio “Álvares Penteado” (Fecap).

Sinais e preservação do caixa

Quando os problemas começam a aparecer, o diagnóstico precisa considerar se a dificuldade é pontual ou estrutural. Em situações de curto prazo, medidas como antecipação de recebíveis, negociação de prazos maiores com fornecedores e redução de custos fixos desembolsáveis podem ajudar a recompor o caixa.

Já situações estruturais podem exigir mudanças no perfil do endividamento, priorizando prazos mais longos sem necessariamente aumentar o volume total da dívida, além de aportes de capital e outras alternativas de financiamento.

Para preservar o caixa, também podem ser adotadas medidas para antecipar recebimentos, desde que sem conceder descontos que acabem agravando o problema, além de ações específicas para recuperar valores em atraso e eliminar despesas evitáveis.

O caixa é o coração da empresa. “Nos primeiros sinais de dificuldade, é necessário buscar a maior disponibilidade possível de recursos e analisar custos e despesas fixas e variáveis para identificar onde podem ser feitos cortes ou reduções no curto prazo, sem comprometer a operação”, afirma Peleias.

Para o professor, a prevenção depende de uma postura estratégica permanente. Isso envolve acompanhar o próprio segmento de atuação, mudanças no ambiente econômico, medidas governamentais que possam afetar o negócio, movimentos de concorrentes e oportunidades de novos mercados. Internamente, também são importantes a eficiência operacional, o treinamento das equipes, o uso adequado da tecnologia e a realização de rituais de prestação de contas, com fechamento e análise periódica dos resultados econômico-financeiros.

“É preciso agir de forma mais proativa do que reativa, com atenção permanente ao ecossistema e ao entorno da empresa. A gestão profissional, realizada por pessoas competentes, confiáveis e experientes, é parte importante desse processo”, conclui Peleias.

O especialista – Ivam Ricardo Peleias é professor e pesquisador da Fecap desde 2000. É doutor em Ciências Contábeis pela FEA-USP e sócio da IRPE – Perícia e Consultoria Contábil, atuando como perito, parecerista, assistente técnico e testemunha técnica em questões patrimoniais no Judiciário, arbitragens e relações privadas. Sua atuação acadêmica e profissional abrange contabilidade, controladoria, controle interno, compliance, gestão de riscos, perícia contábil e educação para contadores e administradores. Foi executivo em empresas nacionais e estrangeiras.

Ocupa a cadeira nº 56 da Academia Paulista de Contabilidade. Atuou como conselheiro fiscal de empresas listadas na B3. Desenvolveu e implementou modelos e planos de assessoria a conselhos fiscais de cooperativas de trabalho médico (Unimed´s).

Fecap

A Fundação Escola de Comércio “Álvares Penteado” é referência nacional em educação na área de negócios desde 1902. A instituição proporciona formação de alta qualidade no Ensino Médio (técnico, pleno e bilíngue), graduação, pós-graduação, MBA, mestrado, extensão e cursos corporativos e livres.

Diversos indicadores de desempenho comprovam a qualidade do ensino da Fecap: nota 5 (máxima) no Enade (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes) e no Guia da Faculdade Estadão Quero Educação 2021, e o reconhecimento como melhor centro universitário do Estado de São Paulo segundo o Índice Geral de Cursos (IGC), do Ministério da Educação. Em âmbito nacional, considerando todos os tipos de instituição de ensino superior do país, a Fecap está entre as 5,7% IES cadastradas no MEC com nota máxima.

Fonte: Vagner Lima <atendimentoimprensa@fecap.br>

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