Engenharia agronômica na Copa do Mundo

Gramados - Também são protagonistas, pois têm impacto direto no desempenho dos times, na velocidade do jogo, na rolagem da bola e na redução do risco de lesões. (Foto ilustrativa: Magnific grátis)

Por: João Guilherme Sabino Ometto.

Na maior Copa do Mundo de todos os tempos, os gramados, organismos tão vivos quanto os atletas, também são protagonistas, pois têm impacto direto no desempenho dos times, na velocidade do jogo, na rolagem da bola e na redução do risco de lesões. O que pouca gente lembra é que, para isso, há um trabalho técnico sofisticado, conduzido por engenheiros agrônomos especializados em manejo agrícola, fertilização e nutrição vegetal. As mesmas tecnologias utilizadas em sistemas agrícolas de alta produtividade hoje também são aplicadas na preparação dos melhores campos de futebol.

A evolução dos gramados nas últimas décadas ajuda a explicar parte da evolução tática do esporte e da performance das equipes. A fertilização deixa de ser uma atividade secundária e passa a ocupar papel estratégico na sua preparação. O manejo deve ser contínuo e envolver a combinação de adubos granulados e líquidos, além do equilíbrio rigoroso entre nitrogênio, fósforo e potássio (NPK), para fortalecer a grama, estimular o crescimento uniforme e manter o padrão visual exigido pelas competições internacionais.

Outro aspecto que vem ganhando espaço é o uso de compostos orgânicos, bioestimulantes, aminoácidos, extratos de algas e condicionadores de solo. Esses insumos ajudam os gramados a suportarem calor excessivo, uso intenso, deficiência hídrica e o desgaste provocado por partidas sucessivas. Também contribuem para melhorar as condições físicas, químicas e biológicas do solo.

A própria construção dos campos segue critérios rigorosos da engenharia agronômica. Nos grandes estádios, é comum a utilização do chamado ‘topsoil’, uma composição de areia e matéria orgânica desenvolvida para garantir drenagem eficiente, infiltração adequada da água e desenvolvimento saudável das raízes. O equilíbrio entre retenção de nutrientes e escoamento da água é decisivo para manter a estabilidade do piso. Também é relevante o aspecto ambiental presente na gestão dos campos, com o uso de bioinsumos e adubos provenientes da compostagem de materiais orgânicos.

O exemplo dos gramados da Copa do Mundo remete a um fator impactante para o agro brasileiro, que, assim como as derrotas de um time, tem causado fortes “emoções” aos produtores: a importação de 85% do total consumido de fertilizantes minerais. Tamanha dependência aflige ainda mais os campos rurais, como um pênalti contra nossa seleção, no presente cenário de guerras envolvendo nações produtoras, dificuldades logísticas e atitudes como a da China, de restringir suas exportações de adubos, e, da Rússia, de proibir o transporte do insumo “enxofre” para o Cazaquistão fabricar o MAP (Fosfato Monoamônico), rico em nitrogênio e fósforo.

Por isso, espera-se que a lei 699/2.023, que institui o Profert (Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes), aprovada pela Câmara dos Deputados em maio último, seja rapidamente votada no Senado e receba sanção presidencial. É um avanço, pois, dentre outras medidas, cria um fundo de apoio à produção nacional, institui mistura percentual obrigatória de insumos brasileiros nos compostos comercializados e estimula a produção no País dos adubos minerais. Também é muito significativo o fato de que preveja o fomento e a ampliação do uso de bioinsumos, biofertilizantes e mineralizadores, cuja eficácia pode ser comprovada na qualidade dos melhores gramados do futebol mundial.

Dentre as tecnologias de bioinsumos, destacam-se: bactérias fixadoras de nitrogênio, que reduzem sua aplicação de 80 quilos por hectare para apenas 20 no plantio da soja; digestato, produzido a partir da digestão anaeróbica da matéria orgânica, que tem alto teor de NPK, e, mineralizadores, também conhecidos como pó de rocha ou rocha moída, utilizados na revitalização do solo.

Há, também, o micro-organismo rizóbio, a bactéria do bem, muito eficiente na cultura da soja para a fixação biológica de nitrogênio, que permite substituir totalmente a adubação nitrogenada química. Nas lavouras da cana-de-açúcar, usamos a torta de filtro, rica em fósforo, potássio e nitrogênio, e, a vinhaça, abundante em potássio. Há, ainda, a cama de frango, adubo orgânico de alto valor, composto pelos dejetos das aves.

Tudo isso evidencia como a agronomia extrapola os limites do setor rural. Ademais, do mesmo modo que na Fórmula 1 a tecnologia testada nas pistas é depois aplicada na indústria automotiva, também se pode aproveitar o aprendizado referente aos gramados para turbinar a adubação e reduzir a dependência de fertilizantes importados.

Afinal, quando um passe sai perfeito e a bola desliza livre, leve e solta pelo gramado, existe ali algo além das jogadas de efeito, dos passes de três dedos, dos dribles desconcertantes e do talento esportivo. Há uma competente atividade profissional, ciência, tecnologia, nutrição do solo e bioinsumos que ajudam a consolidar o futebol como esporte mais amado do planeta e a colocar o agronegócio brasileiro no pódio global da segurança alimentar e das commodities agrícolas.

(*) João Guilherme Sabino Ometto é engenheiro (Escola de Engenharia de São Carlos – EESC/USP), empresário e membro da Academia Nacional de Agricultura (ANA).

Fonte: <simone.alves@viveiros.com.br>

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