O vestibular da Fuvest, principal porta de entrada para a Universidade de São Paulo (USP), abre inscrições a partir desta segunda-feira (17/8). Os candidatos têm até o dia 9 de outubro para as inscrições pela internet, mediante o pagamento de taxa de R$ 228,00. O processo seletivo é o mais tradicional e disputado do Brasil: no certame de 2.027, são oferecidas 8.147 vagas via vestibular. No ano passado, 111.480 inscritos.
Como é
O vestibular da USP é reconhecido por seu alto nível de exigência, com foco em profundidade, precisão técnica e estrutura própria, que valoriza tanto o conteúdo quanto a forma como o candidato pensa e se expressa. Mais do que decorar conteúdos, a Fuvest busca identificar estudantes com raciocínio crítico, domínio conceitual e capacidade de relacionar ideias entre diferentes áreas do conhecimento.
A Fuvest não é uma prova que se vence com estratégias de curto prazo. “Ela exige aprofundamento conceitual, constância nos estudos e desenvolvimento do raciocínio crítico. Quanto antes o aluno entende o perfil da banca e organiza sua rotina, maiores são as chances de chegar competitivo no dia da prova”, afirma Henrique Barreto Andrade Dias, coordenador pedagógico da Brazilian International School – BIS, de São Paulo (SP).
O vestibular acontece em duas fases. Na primeira, marcada para 1º de novembro, os candidatos respondem a 80 questões de múltipla escolha, que abrangem todas as disciplinas do ensino médio: Língua Portuguesa, Matemática, História, Geografia, Biologia, Física, Química, Inglês, Filosofia, Sociologia, Arte e Educação Física.
Já a segunda fase é dividida em dois dias de prova, previstos para 6 e 7 de dezembro. O primeiro dia de prova traz dez questões discursivas de Língua Portuguesa e uma redação, enquanto o segundo dia traz 12 questões discursivas de dois, três ou quatro componentes curriculares, conforme a carreira escolhida.
Como se preparar
Na avaliação do coordenador do BIS, compreender o formato da prova é decisivo para uma boa estratégia de preparação. “É fundamental que o estudante treine com provas anteriores e simulados completos. A Fuvest valoriza clareza, organização do pensamento e precisão conceitual, especialmente nas questões discursivas. Não basta saber o conteúdo: é preciso saber explicá-lo”, destaca Dias.
A Fuvest avalia competências amplas, como interpretação, raciocínio lógico e capacidade de conexão entre temas. “As questões exigem que o aluno compreenda conceitos, estabeleça relações entre disciplinas e saiba aplicar o conhecimento em diferentes situações. Estudar por competências – e não apenas por matérias isoladas, faz muita diferença”, explica Henrique.
A recomendação é estudar, em média, de duas a três horas por dia, distribuídas da seguinte forma: 20 minutos de revisão do conteúdo estudado anteriormente, 70 a 80 minutos de estudo teórico com exercícios, pausa curta para descanso – e mais um bloco de estudo voltado à prática ou à redação.
A distribuição das áreas do conhecimento ao longo da semana pode seguir a lógica: Linguagens (Língua Portuguesa, Literatura e Inglês) na segunda-feira; Ciências Humanas (História, Geografia, Filosofia e Sociologia) na terça-feira; Ciências da Natureza (Biologia, Química e Física) na quarta-feira; Matemática na quinta-feira; e Redação e leitura das obras literárias e de atualidades às sextas-feiras.
Conteúdos que costumam aparecer
Língua Portuguesa: interpretação textual, gêneros textuais, reconhecimento e análise de sentido.
Inglês: interpretação de texto em língua inglesa; compreensão de vocabulário e leitura crítica.
Matemática: geometria plana, funções, trigonometria, probabilidade, análise combinatória.
Biologia: ecologia, genética, fisiologia animal e humana.
Química: química geral e físico-química, reações orgânicas, atomística.
Física: mecânica (trabalho, energia), eletrodinâmica/eletrostática, interpretação de fenômenos.
História: história do Brasil (colônia, império, república), além de história geral moderna e contemporânea.
Geografia: interpretação de mapas, questões ambientais, geopolítica, população e urbanização.
Sociologia e Filosofia: movimentos sociais, cidadania, cultura, teoria sociológica clássica (estas disciplinas têm presença crescente).
Redação
Desde o vestibular 2.026, a Fuvest passou a permitir propostas de redação em diferentes gêneros textuais, além do tradicional formato dissertativo-argumentativo – refletindo a importância crescente das competências de comunicação no ensino superior e no mercado de trabalho, que valorizam a clareza, a capacidade de adaptação e a expressão em diferentes contextos. A mudança exige atenção redobrada ao contexto da proposta e às características específicas do gênero solicitado.
A redação tem um peso significativo e pode ser decisiva para a aprovação. “A Fuvest avalia não apenas a escrita correta, mas a capacidade de compreender a proposta, adaptar-se ao gênero solicitado e construir um texto coerente e bem articulado. Treinar diferentes gêneros textuais e ampliar o repertório de leitura é indispensável”, afirma o coordenador do BIS.
Além disso, o coordenador destaca a importância do repertório sociocultural na construção de bons textos e argumentações consistentes. “O estudante que desenvolve um repertório sólido, com referências históricas, literárias, filosóficas e científicas, consegue fundamentar melhor suas ideias, sustentar seus pontos de vista com legitimidade e construir uma retórica mais persuasiva. Não se trata apenas de citar autores, mas de mobilizar conhecimentos de forma produtiva, articulando-os ao tema proposto e demonstrando maturidade intelectual.”
Livros obrigatórios
A leitura das obras literárias obrigatórias segue como uma das etapas mais importantes e desafiadoras da preparação para a Fuvest. A lista de livros para o vestibular 2.027 é composta exclusivamente por autoras mulheres da literatura em língua portuguesa, buscando valorizar diferentes perspectivas, ampliar a representatividade e fomentar reflexões sobre o papel feminino na literatura e na sociedade. São nove obras que propõem um diálogo entre diferentes épocas, estilos e contextos sociais, exigindo dos candidatos não apenas a leitura integral, mas também uma compreensão crítica e contextualizada.
“O trabalho com obras literárias permite o desenvolvimento e o treino de habilidades essenciais, como interpretação de textos, leitura simbólica, identificação de recursos de linguagem e, sobretudo, a transferência de aprendizagens para a produção escrita, competência central nas redações e questões discursivas”, avalia Paulo Rogerio Rodrigues, coordenador pedagógico da Escola Bilíngue Aubrick, de São Paulo (SP).
Para estudar essas obras literárias de forma eficiente, algumas estratégias práticas fazem toda a diferença. Uma delas é o fichamento, que consiste em registrar informações importantes durante a leitura, como temas centrais, personagens, trechos marcantes, símbolos e relações com o contexto histórico. Além disso, reler passagens-chave, assistir a aulas de apoio, participar de grupos de leitura e relacionar os livros entre si ajudam a aprofundar a compreensão. “O estudante não deve ler de forma passiva. É fundamental dialogar com o texto, levantar hipóteses e fazer conexões”, destaca o professor de Língua Portuguesa da Escola Internacional de Alphaville, de Barueri, Thiago Silverio Barbosa.
Os livros costumam aparecer de maneira interpretativa e contextualizada, seja por meio de trechos, seja em questões que exigem a compreensão de temas, estilos literários, vozes narrativas e relações com outros textos ou áreas do conhecimento. Por isso, decorar resumos não é suficiente. “Para acertar as questões, o candidato precisa entender a obra como um todo, reconhecer suas marcas principais e saber interpretar o que o texto sugere, grande parte das vezes de forma implícita”, afirma Fernanda Silveira, coordenadora do Ensino Médio do Colégio Progresso Bilíngue, de Campinas/SP.
Resumo de cada obra
A Paixão Segundo G. H. (1.964), de Clarice Lispector: o livro conta, através de um enredo banal, o pensar e o sentir de G.H., a protagonista-narradora que despede a empregada doméstica e decide fazer uma limpeza geral no quarto de serviço, que ela supõe imundo e repleto de inutilidades. Após recuperar-se da frustração de ter encontrado um quarto limpo e arrumado, G.H. depara-se com uma barata na porta do armário. Depois do susto, ela esmaga o inseto e decide provar seu interior branco, processando-se, então, uma revelação. G.H. sai de sua rotina civilizada e lança-se para fora do humano, reconstruindo-se a partir desse episódio.
A Visão das Plantas (2.019), de Djaimilia Pereira de Almeida: conta a história de capitão Celestino, homem cujo passado de brutalidade e violência assombrosas é substituído, no crepúsculo da vida, por um amor delicado e cuidadoso pelas plantas de seu jardim. De volta a Portugal, e, com a consciência pesada pelas monstruosidades que cometeu, o capitão retorna à casa de sua infância. Na vizinhança, as pessoas conhecem seus malfeitos, então poucos se atrevem a se aproximar. Somente o padre Alfredo é um visitante regular: quer levar o homem para se confessar, mas o único assunto que interessa a Celestino é mesmo o esplendor de seu roseiral.
Balada de Amor ao Vento (1.990), de Paulina Chiziane: primeiro romance publicado por uma mulher em Moçambique, o livro conta a história de amor de Sarnau e Mwando. Ela se apaixona de corpo e alma, ele a abandona. Ela luta para sobreviver à solidão, ele retorna – antes de partir mais uma vez. Eles se envolvem em uma história de amor que tem a relva como cenário e o vento como melodia, mas uma herança conservadora entre os dois. Em um relato poético e quase espiritual de Sarnau, acompanhamos os encontros e desencontros, as escolhas e as renúncias, o desamparo e o privilégio de uma sociedade em que certas tradições afetam diretamente a autonomia da mulher e sua sobrevivência.
Caminho de Pedras (1.937), de Rachel de Queiroz: em Fortaleza (CE) dos anos 1.930, durante a Era Vargas, Roberto tem a missão de recrutar operários para uma nova célula de esquerda. Uma das pessoas que se interessam é Noemi: mãe de Guri e casada com um homem que não ama mais, ela está em busca de algo que a faça se sentir viva. Nas reuniões do partido, Noemi e Roberto desenvolvem uma conexão intelectual intensa, que os leva a um caso amoroso. Ela se vê, então, testando novos limites morais e éticos, tanto no campo do amor quanto no da política. A obra revela a força de uma mulher que decide seguir seus desejos, mesmo que isso implicasse um divórcio. Numa sociedade em que a mulher deveria desempenhar exclusivamente os papéis de mãe, esposa e dona-de-casa, Noemi é tanto infratora quanto heroína da própria história, pois a punição que sabia que enfrentaria não foi o suficiente para convencê-la a continuar num casamento sem amor.
Canção para Ninar Menino Grande (2.018), de Conceição Evaristo: a obra é um mosaico afetuoso de experiências negras, um canto amoroso e dolorido. Na figura do personagem Fio Jasmim, a autora discute com mestria as contradições e complexidades em torno da masculinidade de homens negros e os efeitos nas relações com as mulheres negras. O livro é um mergulho na poética da escrevivência e ao mesmo tempo um tributo ao amor sob uma ótica raramente explorada na literatura brasileira.
Geografia (1.967), de Sophia de Mello Breyner Andresen: coletânea de poesias, inspirada em uma viagem da autora portuguesa à Grécia, que apresenta temas da natureza purificadora em oposição à cidade, a casa, a infância e as pessoas das quais a escritora se recordava. Nas palavras de alguns críticos, o livro disputa com os famosos versos de Virgílio, maior poeta da Roma Antiga.
Memórias de Martha (1.899), de Julia Lopes de Almeida: narrado em primeira pessoa, o livro é uma autobiografia ficcional da jovem Martha. Órfã de pai, vê-se, junto à mãe, relegada à pobreza de um cortiço no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Durante seu crescimento como mulher, encontra na educação a única chance de escapar de sua sina. As constantes preocupações da mãe, que aconselha a filha a aprender os afazeres domésticos para que possa se sustentar depois da morte desta, enquanto a menina vislumbra a ascensão por meio da carreira de professora, evidenciam as transformações do papel social da mulher no fim do século XIX. Destaca-se a preocupação da autora em dar voz a uma protagonista feminina e em ressaltar sua importância para a sociedade. É uma obra essencial para a compreensão da emancipação da mulher em nossa sociedade.
Nebulosas (1.872), de Narcisa Amália: a obra apresenta 44 poemas cujos temas transitam entre a mulher, a natureza e a crítica social abolicionista. Recebeu grande destaque à época de seu lançamento pelo fato, incomum naqueles tempos, de sua autora ser uma mulher. O livro, que é o único publicado pela poetisa, foi suficiente para que a autora alcançasse o reconhecimento público de figuras ilustres como Machado de Assis e o imperador Dom Pedro II.
Opúsculo Humanitário (1.853), de Nísia Floresta: coletânea de 62 artigos, à época publicados em jornais impressos, cujos temas giram em torno da condição feminina e, principalmente, da importância da educação da mulher, vista pela autora como condição essencial para a superação da inferioridade feminina e para o progresso social.
Os especialistas
Fernanda Silveira é pedagoga e psicopedagoga, com 10 anos de experiência na gestão pedagógica do Ensino Médio, com atuação voltada ao acompanhamento acadêmico dos estudantes e ao fortalecimento de suas trajetórias rumo ao vestibular e às suas escolhas para o futuro. Atua como coordenadora pedagógica do Ensino Médio das unidades do Progresso Bilíngue em Campinas (Cambuí e Taquaral).
Henrique Barreto Andrade Dias é licenciado em Geografia e Sociologia, possui especialização em projetos para o terceiro setor e pós-graduação em Psicologia Positiva, Neurociência, Mindfulness, Neuropsicopedagogia e Neurociência Aplicada à Aprendizagem. Atua na área da Educação há 18 anos e atualmente é coordenador pedagógico do currículo brasileiro do Brazilian International School.
Paulo Rogerio Rodrigues é coordenador pedagógico da Escola Bilíngue Aubrick. Profissional com larga trajetória na educação básica com foco na gestão pedagógica e educacional desde a Educação Infantil até os anos finais do Ensino Fundamental 2, com MBA em Gestão Escolar e especialização em Educação Antirracista, Bilinguismo e Neuropsicologia.
Thiago Silvério Barbosa é mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), onde atuou como bolsista Capes, e graduado em Letras pela mesma instituição. Com 16 anos de experiência docente, atualmente leciona Língua Portuguesa e Convivência Ética na Escola Internacional de Alphaville. Sua trajetória é marcada pela versatilidade pedagógica, incluindo passagens por cursos pré-vestibulares e preparatórios para o Enem. No campo da pesquisa, integra o grupo “Psicanálise e Teoria Crítica: Teorias da Subjetivação” (Cebrap/Núcleo Direito e Democracia). Complementando sua formação interdisciplinar, possui especialização em Psicanálise e Análise do Cotidiano pela PUC-SP, além de formação clínica em Psicanálise.
ISP
A International Schools Partnership é um grupo internacional presente em 25 países, com 109 escolas privadas e mais de 92.500 estudantes em todo o mundo. A ISP apoia e capacita as instituições de ensino, desenvolvendo novos padrões de excelência em educação, para transformar as escolas em referência em suas comunidades locais e no setor educacional global.
O aluno da ISP está no centro da jornada de aprendizagem, é preparado para o futuro, tendo acesso a educadores apaixonados e experientes – e a ferramentas para que adquira confiança, conhecimento e habilidades.
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Fonte: <vagner.lima@fsb.com.br>



