(*) Por André Naves.
A “alta performance” solitária não passa de um mito, de uma ilusão…
O imaginário corporativo e social do século XXI foi sequestrado pela figura do “super-herói”: o indivíduo que acorda às 4 da manhã, otimiza cada segundo, domina todas as competências e sai vencedor sozinho. Essa narrativa é exaustiva e ineficiente. A verdadeira alta performance não nasce no isolamento de uma planilha de metas, mas na fricção criativa e no acolhimento mútuo da convivência.
A biologia e a sociologia ensinam uma verdade inconveniente para os egos inflados: todos são seres incompletos. Cada um carrega um universo de capacidades, talentos sublimes e limitações instransponíveis. A “deficiência” não é uma exclusividade de um grupo laudado; a incompletude é a condição humana universal. E é justamente aqui que reside o “pulo do gato” da evolução.
Quando se convive – não apenas há coexistência no mesmo espaço, mas quando se vive com o outro —, opera-se um milagre matemático em que 1+1 é muito superior a 2. Aristóteles já ensinava que “o todo é maior do que a soma das partes”.
Na convivência, a “falta” é preenchida pela “sobra” do outro. A limitação visual é suplantada pela capacidade de observação do colega; a rigidez analítica é suavizada pela inteligência emocional de quem está ao seu lado. Dar as mãos não por caridade, mas por inteligência emocional e estratégica.
Os dados são irrefutáveis. Um estudo da McKinsey & Company (Diversity Wins), ao analisar mais de 1.000 empresas em 15 países, descobre que equipes com alta diversidade (de gênero, étnica e cultural) têm 35% mais chances de superar a performance financeira de seus pares homogêneos. Por quê? Porque a homogeneidade gera cegueira. Pessoas iguais, com as mesmas facilidades e limitações, batem nos mesmos muros.
Contudo, é imperativo um alerta: a diversidade deve compor a essência dos indivíduos, não apenas sua aparência. De nada valem pessoas esteticamente diversas — compondo um quadro visualmente colorido e “inclusivo” — se elas forem homogêneas na maneira de pensar e nas experiências de vida. Se todos frequentaram as mesmas escolas, leram os mesmos livros e nunca enfrentaram barreiras reais, a inovação morre no nascedouro.
A verdadeira potência está no encontro de repertórios de vida distintos, de visões de mundo que, ao colidirem, produzem a faísca da solução inédita.
Projeto Aristóteles, do Google, que busca decifrar o segredo das equipes perfeitas, conclui que o fator número um não é o QI individual dos membros, mas a segurança psicológica – ou seja, a qualidade da convivência. Ambientes em que as pessoas se sentem seguras para expor suas limitações e ideias sem julgamento são os que mais inovam. Segundo a Deloitte, organizações com culturas inclusivas têm seis vezes mais chances de serem inovadoras.
A alta performance, portanto, é coletiva. Surge quando o ambiente permite a coligação, com a criação de rede de proteção e impulso. Obstáculos intransponíveis são superados para o indivíduo, mas triviais para o coletivo.
No entanto, essa alquimia social exige uma pré-condição: a disposição para o encontro genuíno. A convivência funcional não acontece por osmose, ela demanda uma escuta ativa e um olhar humanizado.
Escutar ativamente não é um processo auditivo, mas um ato de “esvaziamento” do eu para receber o outro. Não se escuta com os ouvidos – o tímpano apenas vibra. Escuta-se com a personalidade, com a história, com a alma. É perceber o não dito, a angústia nas entrelinhas, a genialidade tímida.
Da mesma forma, não se enxerga apenas com os olhos – a retina apenas capta luz. Enxerga-se com o coração. Como na obra “Caminho: A Beleza é Enxergar”, deste autor, a visão real é a capacidade de perceber o valor intrínseco do outro, despido de preconceitos.
Nesse ecossistema de trocas, dissolve-se a hierarquia rígida entre ‘mestre’ e ‘aprendiz’. É recuperada a essência da dialética educadora: ninguém é tão pobre que nada tenha a ensinar nem suficientemente rico que não mais precisa aprender.
O estagiário ensina agilidade digital ao CEO, o CEO ensina prudência estratégica ao estagiário. A pessoa com deficiência ensina resiliência e adaptação a um mundo rígido, o engenheiro aprende a projetar acessibilidade universal.
Convivência é, em última análise, a tecnologia de inovação mais potente de que cada um dispõe. Ao reconhecer as próprias limitações, para-se de tentar esconder as falhas e passa-se a buscar parcerias que as compensem. Ao reconhecer as potencialidades, as colocar a serviço do grupo para cobrir as lacunas alheias.
Quer atingir a alta performance? Pare de tentar ser perfeito sozinho. Olhe para o lado. A chave para o seu sucesso provavelmente está em quem você ainda não aprendeu a escutar.
Fonte: Andreia Constâncio <andreia@libris.com.br>




