Brinquedos para adultos podem afetar percepção infantil

Imagem ilustrativa: Pixabay free download.

Brinquedos voltam ao centro das atenções, desta vez, nas mãos de adultos. Bonecos hiper-realistas como os bebês reborn, que imitam recém-nascidos com impressionante fidelidade, e figuras colecionáveis de aparência inusitada, como o Labubu, criadas por artistas de Hong Kong e valorizadas no mercado de luxo, se tornam itens de desejo entre influenciadores, celebridades e jovens consumidores. A princípio, inofensiva ou mesmo terapêutica, essa tendência tem despertado preocupações entre especialistas, especialmente sobre o que representa para o universo infantil.

Para a educadora, psicóloga e gestora da Escola Internacional de Alphaville, de Barueri/SP, Ana Cláudia Favano, o fenômeno lança luz sobre questões profundas ligadas à formação emocional de crianças e adolescentes e ao papel que adultos e influenciadores exercem na construção simbólica do brincar. “Não se trata de demonizar o ato de brincar na vida adulta, que pode, sim, ter função terapêutica ou nostálgica”, explica Ana Cláudia. “Mas, quando esses objetos passam a ocupar o lugar de vínculos afetivos reais, há risco de confusão emocional, especialmente para as crianças que observam esse comportamento.”

O alerta é direcionado principalmente ao contexto digital, em que esses brinquedos circulam como símbolo de status, de estilo de vida e até de pertencimento. Vídeos com adultos embalando reborns como filhos e exibindo coleções de bonecos de pelúcia como ícones de “estética alternativa” acumulam milhões de visualizações e são consumidos por um público que inclui pré-adolescentes e adolescentes em processo de formação identitária.

Esses símbolos se tornam uma espécie de avatar emocional. “Eles não são apenas brinquedos, mas representações de como alguém quer ser visto”, avalia a educadora e psicóloga. “É essencial desenvolver nos alunos a capacidade crítica de entender o que estão expressando ou absorvendo ao seguir essas tendências”, observa.

Impactos – O brincar é uma das linguagens fundamentais da infância. Mais do que entretenimento, é uma via de expressão emocional, desenvolvimento cognitivo e socialização. Para a educadora da EIA, o risco não está no brinquedo em si, mas na forma como ele é ressignificado fora de sua função original – e depois reintroduzido no universo infantil como referência aspiracional.

A criança aprende por imitação. “Se o brincar adulto passa a ser performance para a câmera, colecionismo vazio ou fuga da realidade, a criança internaliza esses valores como legítimos”, aponta Ana Cláudia. “Isso pode levar a uma percepção distorcida de afeto, cuidado e até do próprio papel da infância”, acrescenta.

O primeiro passo para lidar com a questão, segundo a especialista, é o diálogo. Ao invés de proibir ou ridicularizar o interesse por esse tipo de tendência, é mais eficaz conversar com os filhos sobre o que aqueles brinquedos representam, como surgiram e por que se tornaram populares. Perguntar, escutar e compartilhar pontos de vista pode abrir portas para uma relação mais segura com o consumo simbólico.

“É também papel da escola ajudar pais e alunos a entenderem que afeto, pertencimento e identidade não se constroem por objetos, mas por relações”, resume a gestora da Escola Internacional de Alphaville.

A especialista – Ana Cláudia Favano é gestora da Escola Internacional de Alphaville. Psicóloga, pedagoga, educadora parental pela Positive Discipline Association/PDA dos Estados Unidos e certificada em Strength Coach pela Gallup. Especialista em Psicologia da Moralidade, Psicologia Positiva, Ciência do Bem-Estar e Autorrealização, Educação Emocional Positiva e Convivência Ética. Dedicada à leitura e interessada por questões morais, éticas, políticas, mobiliza grande parte de sua energia para contribuir com a formação de gerações comprometidas e responsáveis.

Fonte: <vagner.lima@fsb.com.br>

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