Bandeira amarela em maio: pressão no custo de energia e fase mais sensível do sistema

Motivos - Transição para período seco e variações de temperatura impactam o sistema elétrico e tendem a pressionar custos ao longo de 2.026. (Foto: Ilustração)

A decisão da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) de acionar a bandeira tarifária amarela para maio marca o início de um período de maior pressão no custo da energia elétrica no Brasil. Com a mudança, os consumidores passam a pagar um valor adicional de R$ 1,88 a cada 100 kWh consumidos, refletindo a redução no volume de chuvas e a transição para o período seco.

Em São Paulo, principal centro consumidor do país, esse movimento ocorre em paralelo a uma mudança no comportamento climático, típica desta época do ano. Com o fim do período chuvoso e a chegada de maio, a Capital Paulista entra em uma fase de maior variabilidade térmica, com alternância entre dias mais quentes e quedas de temperatura.

Historicamente, maio marca o início do período seco no Sudeste, quando os reservatórios deixam de ser abastecidos pelas chuvas regulares e passam a depender mais do volume acumulado. Esse processo aumenta a sensibilidade do sistema elétrico, já que reduz a previsibilidade da geração hidrelétrica.

Em maio de 2.025, como referência do período anterior, a cidade de São Paulo registrou dias mais quentes mesmo em um mês de transição. Historicamente, o período é marcado por maior variabilidade térmica, com alternância entre tardes mais quentes e quedas de temperatura ao longo das semanas.

Esse cenário tem impacto direto no consumo e na dinâmica do sistema elétrico. Temperaturas acima da média elevam o uso de equipamentos como ar-condicionado, enquanto períodos mais frios aumentam a demanda por aquecimento, gerando oscilações que pressionam a carga energética.

Além disso, o sistema entra neste período com níveis ainda considerados confortáveis de armazenamento. Dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) indicam que o subsistema Sudeste/Centro-Oeste, responsável por cerca de 70% da capacidade de armazenamento do país, opera atualmente na faixa de 65% a 70% de Energia Armazenada (EAR), patamar ainda considerado confortável, mas que marca a transição para uma fase de maior dependência desse estoque com a chegada do período seco.

Para Gustavo Sozzi, CEO da Lux Energia, empresa especializada em soluções de eficiência, gestão e armazenamento energético, a bandeira amarela confirma uma mudança importante no cenário. “A entrada da bandeira amarela é um sinal claro de que o sistema já começou a sentir os efeitos da redução das chuvas. A partir de agora, o nível dos reservatórios e o comportamento da demanda passam a ter impacto direto no custo da energia”, afirma.

Segundo o executivo, o movimento já era esperado e tende a ganhar força ao longo dos próximos meses. “O aumento na conta de luz é apenas o reflexo final de um processo que começa antes, com clima, consumo e geração. O sistema entra agora em uma fase mais sensível, que exige atenção maior”, explica Sozzi.

A combinação entre menor volume de chuvas, maior variabilidade de temperatura e crescimento da demanda aumenta a probabilidade de acionamento de usinas térmicas, que possuem custo mais elevado e pressionam as tarifas.

Projeções para 2.026 já indicavam uma tendência de alta nas tarifas, mas esse movimento começa a se materializar na prática. A Aneel aprovou recentemente reajustes tarifários que impactam mais de 22 milhões de consumidores em diferentes regiões do país, com variações médias entre 5% e 15%, a depender da distribuidora.

Os aumentos refletem, principalmente, a pressão de encargos setoriais, além dos custos com compra e transmissão de energia. Outro fator relevante é a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), encargo que financia subsídios do setor e deve ultrapassar a marca de R$ 50 bilhões neste ano, com impacto direto nas tarifas de energia elétrica.

Diante desse cenário, cresce também o movimento de empresas em busca de alternativas para reduzir a exposição à volatilidade no custo de energia. Entre as estratégias mais adotadas estão a migração para o mercado livre de energia e o uso de sistemas de armazenamento, como baterias (BESS), que permitem maior controle sobre o consumo e a gestão da demanda.

O que se tem observado é uma mudança de postura das empresas. “Energia deixou de ser uma despesa passiva e passou a ser gerida de forma estratégica. O mercado livre permite previsibilidade de preços, enquanto soluções como baterias ajudam a reduzir picos de consumo e aumentar o controle sobre o uso de energia”, destaca Gustavo Sozzi, CEO da Lux Energia.

Para o executivo, São Paulo tende a sentir essa transição de forma mais evidente por concentrar grande parte do consumo energético do país. “A Capital Paulista é um dos principais centros de demanda do Brasil, então, qualquer oscilação de temperatura ou mudança no padrão de consumo tem impacto relevante no sistema. Isso torna a região um termômetro importante do que pode acontecer no restante do país”, complementa o CEO.

Por fim, ele destaca que o momento exige planejamento e antecipação. “O custo da energia não muda de um dia para o outro, vai sendo construído ao longo do tempo. Quem acompanha esses sinais com antecedência consegue tomar decisões mais eficientes e reduzir a exposição a oscilações tarifárias”, conclui Gustavo Sozzi.

Fonte: <cleiton.andrade@mgapress.com.br>

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