Ameaças e resiliência do agro brasileiro

André Naves - Defensor Público Federal. (Foto: Divulgação)

(*) Por André Naves.

Uma sabedoria antiga ecoa no Brasil caipira: diz que tudo começa pelo solo. Antes da indústria, da tecnologia e do mercado financeiro, existe a terra. O agronegócio não é chamado de setor primário por acaso – é a base, a viga mestra sobre a qual se ergue o edifício complexo de uma nação.

Um agro forte não é apenas uma questão de balança comercial, mas de soberania, de segurança alimentar e, acima de tudo, de dignidade para o povo. Sem ele, o desenvolvimento econômico e a inclusão social se tornam promessas vazias, sem raizes para florescer.

É com profunda preocupação que se assiste a essa preciosidade ser atacada de forma frontal e desleal. É parte de tudo o que temos de melhor! Os mais recentes rosnados de Donald Trump e seus porta-vozes contra o agronegócio brasileiro nada mais são do que manobras que ofendem não apenas os produtores, mas a inteligência e a resiliência de todo um país. Usar a nobre e necessária bandeira da proteção ambiental como pretexto para uma guerra comercial é um ardil que não se sustenta diante dos fatos.

A recente declaração de Karoline Leavitt, porta-voz da Casa Branca, de que os Estados Unidos possuem padrões de segurança, saúde e qualidade superiores aos do Brasil, é mais do que uma inverdade – uma falácia construída para minar nossa credibilidade e abrir caminho para que outros mercados nos fechem as portas. Eles tentam pintar um retrato de um Brasil devastador e irresponsável, ignorando deliberadamente a revolução que fizemos no campo.

A verdade é que o nosso agro é um dos mais sustentáveis do planeta. É aqui que a ciência, com o protagonismo de instituições como a Embrapa, permitiu o desenvolvimento de tecnologias como a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) e o plantio direto, que aumentam a produtividade enquanto recuperam áreas degradadas e sequestram carbono.

O produtor brasileiro, do familiar ao grande exportador, aprendeu a duras penas que preservar é a melhor forma de produzir a longo prazo. Nossos padrões de qualidade e sanidade são rigorosos e reconhecidos mundialmente, razão pela qual nossa comida está na mesa de mais de um bilhão de pessoas todos os dias.

O que os Estados Unidos veem, na verdade, não é um problema ambiental, mas um competidor formidável. Um país tropical que, com engenho e trabalho, transformou-se em uma potência agrícola que produz com eficiência e qualidade ímpar. A estratégia deles é clara: criar uma narrativa negativa para justificar protecionismos e garantir mercados para si. É a velha tática de quem é incapaz de competir de forma justa no campo aberto.

Para enfrentar essa “trumpulência”, o silêncio não é uma opção. A resposta do agronegócio brasileiro precisa ser à altura do nosso tamanho. Mas não uma resposta com o fígado, e, sim, com a sabedoria de quem conhece o próprio valor. Precisamos saber mostrar ao mundo, com dados, transparência e histórias reais, a nossa verdadeira face. A face do agricultor que preserva suas nascentes, da tecnologia que otimiza o uso da água, da ciência que gera sementes mais resistentes e da cadeia produtiva que gera milhões de empregos.

Devemos continuar investindo em sustentabilidade, rastreabilidade e inovação. A melhor resposta a uma acusação de má qualidade é entregar uma qualidade ainda maior – deixar claro que a prosperidade do agro é a prosperidade do Brasil. É o motor que financia a infraestrutura, que gera renda no interior e que garante o pão na mesa das grandes cidades.

Como nos ensina a sabedoria bíblica, “a árvore boa se conhece pelos frutos”. Os frutos do nosso agro são a abundância, a qualidade e a crescente consciência socioambiental. Cabe a nós não apenas colher esses frutos, mas também defendê-los com a força da verdade e o orgulho de quem sabe o valor do chão que pisa. A tentativa de minar nossa força deve servir de combustível para nos tornarmos ainda mais fortes, mais unidos e mais conscientes do nosso papel fundamental na construção de um Brasil mais justo e inclusivo para todos.

(*) André Naves é Defensor Público Federal formado em Direito pela USP, especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social, mestre em Economia Política pela PUC/SP. Cientista político pela Hillsdale College e doutor em Economia pela Princeton University. Comendador cultural, escritor e professor (Instagram: @andrenaves.def).

Fonte: Cristina Freitas <cristina@libris.com.br>

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