Uso excessivo de telas causa TDAH em crianças?

Sem excessos – Muitas tecnologias digitais ou sem supervisão afetam diretamente funções cognitivas, como atenção, memória, raciocínio e capacidade de interação interpessoal. (Foto ilustrativa: Magnific grátis)

As tecnologias digitais estão presentes na infância e na adolescência. Entre os que possuem de 9 a 17 anos, 96% acessam a internet quase todos os dias, 82% assistem a vídeos, filmes ou séries on-line e 79% trocam mensagens instantâneas, segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil. Com o aumento do tempo diante das telas, também surgem dúvidas entre pais e cuidadores sobre os impactos desse hábito no desenvolvimento infantil.

Afinal, como diferenciar uma distração provocada pelo ambiente digital de um quadro de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH)? O Hospital Pequeno Príncipe, que é o maior e mais completo hospital pediátrico do país, esclarece todas as dúvidas sobre esse tema.

Crianças e adolescentes com TDAH costumam ser ainda mais sensíveis aos estímulos das telas, que ativam continuamente os mecanismos cerebrais relacionados à motivação e à recompensa. Quando o uso é interrompido, podem surgir maior distração, inquietação, dificuldade para realizar atividades menos estimulantes e vontade de retornar ao ambiente on-line, o que favorece a dependência digital.

Crônica e controle

O TDAH é uma condição crônica que não tem cura, mas pode ser controlada com o tratamento adequado. A origem está principalmente relacionada a fatores genéticos – comumente hereditários (passados dos pais para os filhos) -, mas fatores ambientais e comorbidades com outras condições neuro desenvolvimentais e psiquiátricas podem agravar o quadro. Os sintomas costumam aparecer nos primeiros anos de vida e persistem ao longo do crescimento.

“O uso excessivo de dispositivos digitais pode levar ao surgimento de sintomas como falta de atenção, hiperatividade, inquietação, impulsividade, ansiedade, irritabilidade, insônia e sono fragmentado, características também comuns na trajetória de desenvolvimento dos indivíduos diagnosticados com TDAH”, explica o neurologista pediátrico, Antônio Carlos de Farias, do Hospital Pequeno Príncipe.

Ou seja, uma criança que passa muitas horas por dia em frente ao celular, videogame ou computador pode apresentar dificuldade de concentração sem, necessariamente, ter TDAH.

Estímulos digitais

Os ambientes digitais oferecem estímulos rápidos e constantes por meio de notificações, vídeos curtos, jogos e redes sociais. Esse padrão ativa repetidamente os circuitos cerebrais ligados à dopamina, neurotransmissor responsável pela motivação e pela sensação de recompensa. Como consequência, a criança ou o adolescente pode entrar rapidamente em um estado de maior alerta, sentir-se motivado e experimentar uma sensação imediata de satisfação ao interagir com esses conteúdos.

Quando retorna às atividades do dia a dia, porém, esse mesmo nível de estímulo não está presente. Estudar, ler ou realizar tarefas escolares pode passar a parecer menos interessante, fazendo com que a criança, ou o adolescente, fique mais disperso, desmotivado, inquieto e até irritado. Com o tempo, o cérebro passa a buscar recompensas cada vez mais imediatas, o que pode prejudicar a atenção sustentada, a memória, a capacidade de lidar com frustrações e o aprendizado.

Esses comportamentos podem ser confundidos com um transtorno de atenção, quando, na realidade, estão relacionados ao uso excessivo das tecnologias e tendem a melhorar com mudanças na rotina.

TDAH e excesso de telas

No TDAH, os sintomas aparecem desde a primeira infância e costumam estar presentes em diferentes ambientes, como casa, escola e momentos de lazer. Mesmo quando o tempo de tela é reduzido, eles podem melhorar, mas não desaparecem completamente. Por isso, para diagnosticar o TDAH, é necessário avaliar o histórico da criança, seu desenvolvimento e o comportamento em diferentes contextos.

Já quando a dificuldade de atenção está relacionada principalmente ao uso excessivo de dispositivos eletrônicos, a reorganização da rotina costuma trazer melhora significativa em dias ou semanas.

Tempo seguro

Não existe um número de horas que seja considerado ideal para todas as pessoas. Além da quantidade de tempo, é importante avaliar a idade da criança ou adolescente, o tipo de conteúdo acessado e os impactos desse hábito na rotina.

Segundo o neurologista pediátrico, o uso das telas não pode comprometer o sono, os estudos, as atividades físicas, a convivência familiar e os relacionamentos. Também é importante evitar dispositivos eletrônicos entre 60 e 90 minutos antes de dormir, reduzir notificações e limitar a realização de várias tarefas ao mesmo tempo.

Recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP)

• até 2 anos: nenhum tempo de tela;

• de 2 a 5 anos: até uma hora por dia, sempre com mediação de um adulto;

• de 6 a 10 anos: entre uma e duas horas diárias;

• de 11 a 18 anos: entre duas e três horas por dia.

“Uma desintoxicação digital estruturada, com duração de duas a quatro semanas, pode ser útil tanto como teste diagnóstico quanto como tratamento. Essa prática ajuda a identificar até que ponto os sintomas são provocados ou mantidos pelo uso excessivo de telas e pode trazer melhorias significativas no sono, no humor e na atenção”, orienta o especialista.

Rotina sem depender dos estímulos do celular

O ideal é construir uma rotina equilibrada, oferecendo alternativas que despertem o interesse da criança ou do adolescente. Algumas estratégias incluem:

• estabelecer horários sem celular, como durante as refeições e antes de dormir;

• incentivar brincadeiras, leitura, esportes e hobbies;

• promover momentos de convivência com familiares e amigos;

• manter os aparelhos fora do campo de visão durante os estudos;

• estimular que a criança realize uma atividade por vez, evitando a multitarefas.

Ajuda médica

Se a criança ou o adolescente apresenta dificuldade persistente de atenção, hiperatividade ou impulsividade desde os primeiros anos de vida – e esses comportamentos causam prejuízos na escola, em casa ou nas relações sociais, é importante buscar avaliação de um especialista.

O diagnóstico precoce do TDAH permite iniciar o tratamento adequado, reduzir impactos no desenvolvimento e favorecer uma melhor qualidade de vida.

O hospital

Com sede em Curitiba (PR), o Pequeno Príncipe é o maior e mais completo hospital pediátrico do Brasil. Há mais de cem anos, a instituição filantrópica e sem fins lucrativos oferece assistência hospitalar humanizada e de alta qualidade a crianças e adolescentes de todo o país.

Referência nacional em tratamentos de média e alta complexidade, realiza transplantes de rim, fígado, coração, ossos e medula óssea, além de atuar em 47 especialidades e áreas de assistência em pediatria, com equipes multiprofissionais.

Com 369 leitos, sendo 76 de UTI, o hospital promove 76% dos atendimentos via Sistema Único de Saúde (SUS). Em 2.025, realizou 258 mil atendimentos ambulatoriais, 20 mil procedimentos cirúrgicos e 308 transplantes. Reconhecido como hospital de ensino desde a década de 1.970, já formou mais de dois mil especialistas em diferentes áreas da pediatria.

Junto com as Faculdades Pequeno Príncipe e com o Instituto de Pesquisa “Pelé Pequeno Príncipe”, compõe o Complexo Pequeno Príncipe. Essa atuação em assistência, ensino e pesquisa – conforme o conceito Children’s Hospital, adotado por grandes centros pediátricos do mundo – tem transformado milhares de vidas anualmente, garantindo-lhe reconhecimento internacional.

Em 2.025, o Pequeno Príncipe foi listado como um dos 70 melhores hospitais do mundo que atuam com pediatria (ou que atendem crianças) no ranking elaborado pela revista norte-americana Newsweek, o que o colocou, pelo quinto ano consecutivo, como o melhor hospital exclusivamente pediátrico da América Latina. Também é reconhecido como Hospital de Excelência pelo Ministério da Saúde por meio de certificação concedida a instituições que cumprem critérios técnicos rigorosos na assistência.

Desde 2.019, o Pequeno Príncipe é participante do Pacto Global e contribui para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), iniciativa proposta pela Organização das Nações Unidas.

Fonte: Hospital Pequeno Príncipe <marieli.prestes@hpp.org.br>

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