Adolescentes nas redes sociais acende alerta sobre violência digital

Campanha “Pra Toda Vida” - Pequeno Príncipe chama a atenção para a influência do ambiente digital na formação de comportamentos violentos. (Imagem ilustrativa: Magnific grátis)

A misoginia – caracterizada pelo ódio e desprezo pelas mulheres – tem se manifestado de forma cada vez mais precoce entre adolescentes e jovens. Dados da SaferNet Brasil mostram que as denúncias desse tipo de discurso na internet cresceram 224% em 2.025 em relação ao ano anterior. O aumento acende um alerta para a influência do ambiente digital na formação de comportamentos violentos, além do papel das famílias e da própria sociedade na construção de valores e relações desde a infância.

O Hospital Pequeno Príncipe traz para debate os impactos dos discursos misóginos e da violência de gênero nas redes sociais. Ao completar 20 anos da Campanha “Pra Toda Vida – A Violência Não Pode Marcar o Futuro das Crianças e Adolescentes” -, a instituição reforça que discutir misoginia na adolescência também significa prevenir violências e promover relações mais saudáveis.

A criação dentro de casa, somada ao acesso cada vez mais precoce às redes sociais e a conteúdos violentos ou sexualizados na internet, tem influenciado a forma como muitos adolescentes constroem suas percepções sobre masculinidade, relacionamentos e papel das mulheres na sociedade.

Para a coordenadora do Serviço de Psicologia do Hospital “Pequeno Príncipe”, Angelita Wisnieski da Silva, o enfrentamento desse cenário exige participação coletiva. “Vivemos um momento em que o uso das redes sociais e do universo virtual deixou de ser apenas uma questão familiar. Tornou-se um problema de saúde coletiva, que exige o envolvimento de diferentes esferas da sociedade: políticas públicas, profissionais da saúde, educação e, claro, a família”, afirma.

As mudanças necessárias dependem do fortalecimento do diálogo dentro de casa, de ações educativas para relações mais respeitosas e do envolvimento coletivo de famílias, escolas e demais profissionais que atuam diretamente com esse público. O compromisso das plataformas digitais com ambientes mais seguros também é apontado como parte fundamental da prevenção.

Focos de atenção

Recentemente, o TikTok – uma das plataformas com mais denúncias de misoginia, segundo a SaferNet Brasil – virou alvo de investigações por causa da trend criminosa conhecida como “Caso ela diga não”. Na prática, homens simulavam agressões contra mulheres após uma suposta rejeição amorosa. O episódio reacendeu o alerta sobre a banalização da violência e como determinados conteúdos podem normalizar agressões e humilhações contra mulheres.

Muitos adolescentes recorrem à internet em momentos de frustração, conflitos sociais ou desilusões amorosas e acabam encontrando respostas simplistas e rígidas para lidar com inseguranças e sentimentos de rejeição. Sem suporte emocional adequado, tornam-se mais vulneráveis a conteúdos que reforçam estereótipos de gênero, objetificação feminina e padrões rígidos de masculinidade.

Outro ponto de atenção é o papel dos algoritmos na formação de comportamentos e percepções. Conteúdos misóginos frequentemente se apresentam como soluções rápidas para dores emocionais reais, reforçando discursos baseados em controle, poder e ressentimento. Especialistas ressaltam que esse tipo de narrativa pode impactar negativamente tanto meninos quanto meninas, além de estimular relações marcadas por hostilidade, discriminação e violência simbólica.

A repressão emocional masculina também preocupa. Desde cedo, muitos meninos aprendem a associar sentimentos como tristeza, insegurança e vulnerabilidade à fragilidade. Quando emoções como frustração, rejeição ou medo não encontram espaço de expressão saudável, podem transformar-se em raiva e ressentimento, frequentemente direcionados ao feminino.

O papel da família

Na adolescência, a criação de vínculos de confiança é considerada fundamental. Modelos parentais baseados apenas no medo e na punição tendem a gerar afastamento e ocultação de comportamentos. Por isso, abrir espaço para conversas sobre emoções, frustrações e até temas sociais, como violência contra a mulher, pode funcionar como fator de proteção.

As famílias devem observar sinais, como mudanças bruscas de comportamento, isolamento excessivo, consumo secreto de conteúdos on-line, discursos recorrentes de ódio contra meninas e mulheres e dificuldade em lidar com rejeições e frustrações. Em situações em que há perda completa de diálogo ou mudanças mais intensas de comportamento, o acompanhamento psicológico pode ajudar a compreender o que está acontecendo com o adolescente e fortalecer os vínculos familiares.

Em 2.026, com o mote “Proteger a infância é um compromisso de todos”, a Campanha “Pra Toda Vida” reforça que garantir um desenvolvimento saudável e seguro exige diálogo, educação emocional e responsabilidade coletiva – dentro e fora do ambiente digital.

A denúncia é o primeiro passo para interromper a violência – e pode ser feita de forma anônima pelo disque 100 (nacional), 181 (Paraná) e 156 (Curitiba).

Fonte: <aniela.almeida@hpp.org.br>

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